Pseudofilologia

Escavar a imaginação e extrair significados novos para palavras, dissecar sonhos, sons, cheiros e lembranças que cada vocábulo traz. Remontar o quebra cabeças sentimental que nos carrega e sobrecarrega de sensações. Expor o esqueleto ferido e sorridente do pensamento vestido de símbolos gráficos no ar. Deixar que o vento cante por entre as costelas da alegria, baixinho, sussurrando pra não despertar algum amor antigo e já quase mumificado, um artefato do museu vivo que passa sorrindo e me cumprimenta diariamente no espelho. Na pia escorre o que já fui, o monstro de Frankstein sou eu. As partes de diversos corpos semânticos reunidos em uma nova parole mutante atravessada por outros semelhantes tão diferentes que não nos reconhecemos como códigos pulsantes rumo a uma síntese, antíteses refletidas em água corrente passamos pelo outro e os carregamos quanto mais tentamos nos recusar . Ideias mofadas, requentadas para parecerem novas provocam o vômito de preconceitos e a satisfação de quem não sabe respeitar o que não parece um reflexo de si. Narcisos apredejando Violetas e Rosas e Margaridas tão frágeis que não deixam mais perfume em quem lhes corta, só o perfume da saudade. O odor triste da ausência, se transformam em adubo para a paz que tarda a florescer.

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Maré de samba

Mergulhei na tristeza depois que uma onda de saudade me acertou e no fundo do meu coração eu achei o que me ergueu de volta. A maré do samba me levou pra praia serena do amor sem ondas de saudade, agora eu surfo na alegria do olhar da minha morena e mergulho no verde do olhar que me guia pra paz.

Saudade, o Poço

No meio do Vale da Tristeza e do Esgotamento existe um velho poço de água salobra chamado Saudade. Quem chega até ele pode beber e quem sabe suportar um pouco mais da viagem ou passar direto e correr o risco de ser arrastado para o fundo do caminho e perder o rumo de vez, descendo a espiral do Desespero até a Indiferença, antigo leito de um rio seco, agora pedregoso, poeirento, esquecido, rompido o fluxo do que foi um rio o que restou foi uma cova de sonhos abandonados, planos abortados e toda sorte de alegrias estranguladas em botão. Sua fétida existência é uma lembrança do Bem abandonado por medo do fracasso quando o melhor seria lutar e quem sabe até morrer pela glória de cumprir um dever. Agora jazem ali sorriso a escarnecer de si e de quem segue o mesmo caminho sem saída.

De ninguém nem de nada

Essa é a história de um herói desconhecido sem alguém pra quem voltar, nem mesmo um refúgio onde se esconda pra tratar as várias feridas que são as únicas medalhas que tem. Medalhas necessárias para recordar o que viveu e por onde andou, o que viu, a memória epidérmica da alucinação que é sua realidade que o afoga sem água só a memória a empurrar pra frente quando ele quer parar e morrer mas foi condenado à vida, sombra que resiste à luz e ainda assim não é vista. Tem uma família para a qual voltar? Nunca mais. Tem um ombro amigo que o console e dê esperança a um coração já vazio? Nunca mais. Deseja o herói ter de volta o que perdeu? Nunca mais. Então para que vive herói se não tens o que ou quem defendas? Para que batalhar? Viver para cumprir a Longa Jornada e defender o defender o indefensável direito de ser quem se é. Sem máscaras olhar o Prazer e a Dor nos olhos e chorar sua alegria e rir do seu choro e espalhar seu encanto que é saber que por trás do Véu do Mistério está a Paz da Consciência Tranquila de quem caminhou no silêncio sem esquecer de agir quando necessário na medida do possível. O herói dorme sossegado por ser um anônimo. Descansa herói que a jornada é longa mas não a sua paciência.

De sobra

O que sobrou do meu coração? O solo duro, seco sem ilusões de amor, um vento quente, abafando o último grito de dor que me mantinha acordado, a chuva ácida de críticas e autocrítica que tira a visão de um perdido sonho que ficou enterrado em amargura, o concreto armado de pistola e fuzil. O azedo e o amargo, o alvorecer de vinho tinto solitário e seco e quente rasgando a mortalha da noite sem estrela guia que tropece tremendo no firmamento. A ironia, minha linda acompanhante vomita elogios como quem dá preciosas lições a uma multimilenar e sonolenta criança surda e adormecida e bêbada. Palmas para o funeral do último idiota nacional. Heróis temos de sobra.

Rascunho I

A história que eu vou contar não é minha e eu não tenho como nem porquê verificar. Eu acredito em quem me contou e vou recontar o mais fielmente que posso. O personagem principal dessa história não é um herói em nenhum sentido dessa palavra. Não tem nobreza de origem e muito menos de caráter, não é bonito e também não era quando os fatos, em desfile aqui , aconteceram . O cenário tampouco é um cenário paradisíaco. Sim, eu estou aqui convidando você que ainda não desistiu dessa longa introdução à ler sobre um sujeito feio, trapaceiro, violento e preconceituoso num lugar desagradável e perigoso fazendo coisas questionáveis para enriquecer, comprar um amor, sim eu escrevi comprar um amor, um lugar pra morar e sair para beber com os amigos. Pois esse sujeito egoísta que só se preocupa com ele mesmo esse é o melhor caráter que irá aparecer nessa história. Tudo começa com a execução de um refugiado africano e com a fuga de sua única filha do vilarejo onde ambos nasceram e viveram em paz por muitos anos mas por um conjunto de circunstâncias, mudanças climáticas, disputas políticas, preconceitos, ambição, as coisas se deterioraram rapidamente. Primeiro foram as pressões para que vendessem suas terras, depois as ameaças e os incêndios misteriosos e acidentes inexplicáveis, quem teimou em resistir passou a ser perseguido e difamado, alguns foram presos e mortos nos cárceres, finalmente o terror chegou ao ponto de não terem mais medo e partirem para alianças com criminosos, a reação se dava em duas frentes, uma através da divulgação do que estava acontecendo e buscava apoio nacional e internacional para a defesa da população com ações políticas e sócio ambientais outra dirigida à luta armada, a resistência direta e violenta à violência. O que era usado como argumento contra aqueles que os guerrilheiros, assim eram chamados pelos adversários já que se consideravam apenas cidadãos defendendo seus direitos e os dos seus amigos .

São Luís- Recife(via Rio de Janeiro )

Essa viagem começa antes de São Luis , na verdade ela se inicia nos Lençóis Maranhenses onde vivem os descendentes d’O Encoberto , O desejado das gentes Dom Sebastião , o que muitos não sabem é que ele depois de desaparecer durante a batalha de Alcácer Kibir encontrou um nobre mouro,o sultão Dassalam que ao contato com o lusitano se tornou cristão e junto com as duas filhas de cada um, entraram em um túnel subterrâneo para a Amazônia onde se separaram. Dassalam ficou com suas filhas no território que corresponde à Manaus e se tornaram Encantados da mata enquanto o europeu seguiu para os lados do Maranhão e se Encantou nos Lençóis, seu novo reino de águas cristalinas, pedras coloridas e gente albina, o sultão dos índios amazônicos e o rei dos Lençóis estenderam seus domínios até a terra de Antônio Conselheiro e não se pode esquecer a secreta porém segura influência de el rei Dom Sebastião no Contestado e se a volta dele terá como prenúncio a submersão da capital maranhense e a instalação do Purgatório no Rio de Janeiro não esqueçamos de que o mundo acaba no Recife e nessa viagem só quem sabe que compaixão é sinônimo de fortaleza de caráter e que o amor constrói pontes sobre as divergências tornando todos irmãos, só esses peregrinos irão fazer o caminho São Luiz (o mergulho no mar da consciência ), Rio de Janeiro (o reajuste de conduta, a mudança de atitude que permite o desenvolvimento ético do ser humano ) via Recife (o fim do orgulho e do egoísmo, o início de uma nova era de cooperação entre todos ) até a volta aos Lençóis (o repouso da consciência tranquila não mais prisioneira de remorsos, livre para continuar a progredir. E que venha Dom Sebastião, aquele que antecede a chegada do Cristo.

Represa Alegria. 

Algumas pessoas perguntam porquê tem mais músicas e textos sobre tristeza do que sobre alegria, pra mim a resposta é simples. Aprendemos a guardar os momentos de alegria, a não contar por medo da inveja alheia, por não querer parecer superficial ou ingênuo, até por achar que não merecemos algo tão bom. Enfim aprendemos a conter em nós a alegria. Quanto a tristeza aprendemos a ter solidariedade e a nos importar com quem sofre, a tristeza recebe palco, platéia atenta e cuidados para se tornar alegria e se represar. A tristeza flui,forma ondas,alcança o outro e ninguém quer se afogar. Então a saída mais saudável é ajudar e  o outro permitir que ele possa então ser alegre e possa então represar sua alegria. Mas o que aconteceria se abrissemos nossas represas de alegria?  Uma inundação? Sim com certeza sim, mas quais as consequências dessa inundação? Pessoas seriam afogadas ou feridas ou mortas nesse tsunami? Provavelmente não pois 

Semeando textos e sentimentos 

A lembrança daquele trecho de texto me trouxe um retropensamento, não , não é só uma lembrança,é um pensamento que volta ao passado e o traz de volta inteiro à retina e ao olfato, mais forte ao último e se não traz ao tato é por piedade. Retropensamento, junção de memória com imaginação criando realidade,aquilo que é fruto presente,casca de futuro que envolve a semente do passado. O futuro se faz casca quando não se realiza e o passado é sempre semente,daquilo que somos hoje e o que hoje é presente se tornará semente do que seremos e o desejo que gera dor também origina expressões de arte em textos,com formas,com som e cor. Plantio : A imensa dor que trago no peito e que ponho na tela através do teclado.
A germinação : As idéias que se juntam no meu subconsciente e adubam os sentimentos para que nasça o texto.
A colheita : Texto pronto ainda cru vibrante de vida é enviado para o meu blog e lá se exibe discreto à espera de quem o leia, aceite e compreenda que é um fruto da dor de um momento, doce e ácido . Irreverente,reflexivo ou ingênuo, tanto faz . O fundamento é que o leitor puxe uma cadeira, entre em contato consigo mesmo e depois de ter lido se aproprie de uma idéia semente escondida no texto fruto e espalhe novas sementes no terreno do coração de quem conhece. Assim o que é minha passageira dor,se faz um conto de alegria na tela de quem lê e quando é recontado, se o for, pode ser canção de ninar, pode ser epopéia ou história de amor. Enquanto houver quem leia haverá um escritor e um suporte físico ou digital ligando um ao outro.